
São Paulo, 12 de Julho de 2008
À Superinteressante
Escrevo à revista para comentar sobre a matéria “Terapia Funciona?”, do mês de Julho/2008. Sou psicóloga, graduada, mestre e doutoranda em psicologia clínica comportamental pela USP, e especialista em terapia comportamental pelo Núcleo Paradigma. Sou terapeuta comportamental, pesquisadora e professora de pós-graduação em terapia comportamental. Sendo assim, creio que posso avaliar com alguma propriedade ao menos a parte da matéria a respeito da abordagem com a qual trabalho e pesquiso. Fiquei bastante desapontada com o reducionismo e com grandes equívocos descritos sobre terapia comportamental e gostaria de esclarecê-los.
(1) “[A terapia comportamental] é indicada para quem sofre reações indesejáveis do corpo diante de manias e fobias (como medo de aranha ou de avião)”.
Na verdade, a terapia comportamental é indicada para qualquer tipo de transtorno, incluindo aqueles citados, mas também outros como, por exemplo, depressão, pânico, hiperatividade, autismo, compulsões, ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de personalidade borderline e problemas de relacionamento íntimo e/ou social, associados ou não a estes diagnósticos. O que diferencia a terapia comportamental das demais terapias não é a indicação para um ou outro tipo de sofrimento, e sim as bases teóricas e filosóficas sobre as quais está pautada. Temos diversos estudos a respeito da eficácia para os transtornos citados, além de pesquisas no país e no exterior sobre o papel da relação terapêutica no desenvolvimento do atendimento ao cliente. Uma das principais marcas da terapia comportamental, não citada no artigo da S.I., é o uso daquilo que denominamos “análise funcional do comportamento”, que inclui aspectos como: o comportamento do indivíduo (incluindo pensamentos e sentimentos), quando ele ocorre, que conseqüências ele produz e o mantêm, reações fisiológicas associadas e história de vida que leva à instalação do mesmo. Como se pode perceber, é uma abordagem bem mais complexa, isso apenas citando brevemente poucos aspectos.
(2) “Utiliza técnicas básicas de aprendizagem, como exposição e condicionamento, na tentativa de trocar o comportamento usual por reações mais agradáveis”.
Para somente demonstrar o reducionismo e os equívocos dessa afirmação, me concentrarei em uma única palavra da mesma. Ao falar em “reações”, a afirmação acima remete a relações estímulo-resposta (como reflexos, por exemplo), que não são o principal alvo de intervenção do terapeuta comportamental, mas apenas uma pequena parte da explicação do funcionamento dos indivíduos. Uma explicação mais completa deveria abranger os fatores presentes na análise funcional do comportamento, especialmente as conseqüências que o comportamento produz sobre os outros. Esse é um equívoco muito comum quando profissionais de outras abordagens discorrem a respeito da comportamental.
(3) “Para os críticos, esse tipo de terapia tenta fazer um adestramento do paciente”.
Esta frase infelizmente reflete a realidade porque, de fato, há um grande número de críticos que têm essa visão sobre a terapia comportamental. Explicações como a dada pela S.I. sobre esta abordagem somente mantêm esse tipo de crítica, realizada por pessoas pouco conhecedoras do assunto para falar sobre ele com propriedade. Longe disso, um dos principais processos de mudança estudados por pesquisadores em terapia comportamental é a aquisição de autoconhecimento, que ocorre quando o paciente torna-se capaz de falar sobre seu próprio comportamento, sobre a origem dele, o que faz com que ele continue existindo, e assim por diante. Outro grande núcleo de pesquisa está em uma vertente da terapia comportamental (também considerada como uma técnica) denominada de Psicoterapia Analítica-Funcional (PAF, de Kohlemberg e Tsai), que estuda o papel da relação terapeuta-paciente no processo de mudança. Poderia citar outros tipos de pesquisa e de vertentes, como a Terapia de Aceitação e Compromisso (de Hayes), a ativação comportamental para depressão, os estudos sobre a relação entre dizer e fazer, outros sobre comportamentos governados por regras e modelados pelas contingências, todos eles passando bem longe de qualquer coisa parecida com “fazer um adestramento do paciente”.
Finalizando, gostaria de mencionar que fiz uma leitura crítica a respeito de todo o artigo, reconhecendo aspectos positivos e outros nem tanto. Entretanto, estou me atendo a escrever somente sobre o pequeno trecho sobre a terapia comportamental porque é a abordagem que estudo, trabalho e me especializo há anos. Creio que a S.I. deveria ter feito exatamente isso na publicação da matéria: ter escolhido diferentes pessoas, especialistas em cada abordagem, para falarem com propriedade somente do que fazem e não cometer erros como esses.
Coloco-me à disposição para mais esclarecimentos, para participar de uma eventual matéria que a S.I. venha a desenvolver sobre terapia comportamental, ou para indicar outros profissionais bem qualificados para participar, ou mesmo livros e artigos sobre o assunto.
Atenciosamente,
Me. Giovana Del Prette
São Paulo - SP
CRP 06/77732
http://lattes.cnpq.br/8405031383441088
gdprette@gmail.com
PS: Espero que minha carta seja publicada e, para facilitar, elaborei abaixo um breve resumo, pois sei que a explicação com mais detalhes excederia o limite de palavras permitido ao espaço das críticas dos leitores.
“Na verdade, a terapia comportamental é indicada para qualquer tipo de transtorno. Uma das principais marcas da terapia comportamental é o uso da “análise funcional do comportamento”, que inclui aspectos como: o comportamento do indivíduo, quando ele ocorre, que conseqüências ele produz, etc. As relações estímulo-resposta, ou "reações", são apenas uma pequena parte da explicação do funcionamento dos indivíduos. Um dos principais processos de mudança é a aquisição de autoconhecimento, que ocorre quando o paciente torna-se capaz de falar sobre seu próprio comportamento, o que faz com que ele continue existindo, e assim por diante.”
5 comentários:
Gi, parabéns pela iniciativa! Demorou pro behecas se unirem.
Qm quiser dar uma olhada em mais opiniões, visite:
http://olharbeheca.blogspot.com/2008/07/superinteressante-deste-ms.html
Abraços.
Oi gí!
Eu comprei e lí a Súper e tb fiquei com um baita nó na garganta! fico muito feliz em sabere que você nos representou tão bem.
abraços,
desirée
Gi, não li a reportagem na Super Interessante. Minhas amigas da Federal de São Carlos (também terapeutas comportamentais) leram a matéria e ficaram preocupadas com a forma como descreveram o que nós fazemos. Estávamos tentando nos organizar para escrever algo à revista e fiquei muito feliz ao ver sua resposta. Perfeita! Adorei! Como disse a Desirée, é muito bom saber que tem alguém nos representando tão bem. Bjs,
Claudia Oshiro
Oi Giovana, acabei de encontrar seu Blog,e você um leitor assíduo dele.
Eu lí sobre a reportagem no blog do Alessandro e do Rodrigo, também enviei um email, e recebí a mesma resposta que você e o Rodrigo..pouco caso...
Rs.. a Super acabou de encontrar um bom crítico.
Olá eu meu nome é Carla,,, li seu blog verifiquei que vc fez algumas pesquisas sobre comportamento e também de transtorno,,, gostaria de ajuda procuro informaçoes claras e objetivas sobre transtorno bipolar, transtorno obcessivo compulsivo e bordeline,,, eu sofro destes 3 transtorno,,, procuro informaçoes como me relacionar em grupo.
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